terça-feira, 15 de dezembro de 2009
Letras em teu Corpo
fazemos poesia e amor até bem tarde.
E ela acorda cedo de manhã.
Beija minhas costas, me acarinha .
Eu a puxo de volta, vasculho seu corpo,
encosto todo meu desejo nela.
Mulher que penso submissa, abelha rainha ,
se desvencilha e sai apressada.
Durante o dia sinto seu cheiro em minhas mãos,
nos lábios,
refaço cenas, passo a passo.
À noite, quando chego da minha lida,
a encontro na cama,
cabelos molhados, adormecida.
Por um tempo velo seu sono,
- algum tremor passageiro, algum sonho –
Não me contenho: exploro, farejo, beijo.
Minha felina se estica, abre seu sorriso mais lindo,
Abre as pernas e me recebe.
Quente, quente, quente!.
Então começamos tudo de novo...
Ah! vida meio vagabunda essa da gente!
Que não acabe nunca!
(Poema de 2007, meu primeiro com eu-lírico masculino)
sábado, 12 de dezembro de 2009
Cavando
Sentindo-se enganada e muito irritada, cavava cada vez mais, mas quanto mais fundo chegava, maior era a ausência de respostas, de pistas ou de provas.
Com o tempo, de mãos vazias, já estava quase desistindo da função quando percebeu que um pouco de terra lhe caiu na cabeça. Após olhar para cima, protegendo a vista mal acostumada do único feixe de luz que chegava àquele buraco, desabou em lágrimas. Percebeu-se cavando a própria cova. Viu que era ele, esgotado, que tentava enterrá-la no passado.
quarta-feira, 9 de dezembro de 2009
Terra Arrasada
Te ocultaste além do horizonte,
mulher que outrora chamei “Amada”.
E quem saberá dizer onde, e quão longe,
fica a amurada que te esconde?
A cama que foi nossa um dia
– e, por mim, ainda seria –
é o leito de um rio morto
(antes água, hoje lodo).
Entre uma margem e outra,
sumidouro, atoleiro, fosso:
queimaste a última ponte,
não resta vau, nem passagem,
e nem mesmo o próprio Caronte
se atreveria a navegar este charco.
Da minha margem diviso a tua,
que por léguas ao fundo e ao largo
fizeste estéril, calcinada e nua,
como quem dissesse, “Delenda Cartago”.
quarta-feira, 2 de dezembro de 2009
Poema de fé
na esquerda um afago
que estendo como sinal de fé.
Meu punho cerrado estendo aos santos vivos,
imaculados.
Aqui deste lado ostento uma reza
do outro um abraço
que ofereço a quem quiser.
Minha boca sedenta ofereço aos mortos vivos,
crucificados.
terça-feira, 1 de dezembro de 2009

no último sonho
conto que não há mais nada
a heroína é o cansaço
que arregaço em minhas veias
fundidas ao pó da carne
dilacerada e entregue aos mortos
vou seguindo teus rumos
agregando-me devoto
aos pesadelos que desconheces
na pupila dilatada o universo
que engana
na finitude humana salva-nos
a ignorante batalha vã
e a vitória do desconhecido.
domingo, 29 de novembro de 2009
QUINTA
Abro os olhos devagar, tentando não me irritar com o toque do celular. Lizt em versão de bolso me avisa quem está ligando. Demoro um pouco para atender, buscando alguma saída dentro daquela loucura. Não há saída. Atendo enfim. quarta-feira, 25 de novembro de 2009
Despetalado
Amanhã? O que acontecerá? Viverei mais um dia? Serei pleno em minha consciência de poder corrigir-me, evoluir-me, errar ou acertar? Ainda que eu não tenha certeza, é essa premissa que me deixa feliz. Essa chance de poder antever e sonhar, enxergar além do que eu possa vislumbrar, estar sempre um segundo à frente, mesmo que primitivamente incauto em aparentes desilusões e sofrimentos.
Não que eu tenha uma gana de ter tudo de novo, de conquistar, ou de voltar os meus passos e refazer cada caminho, apenas para sentir novamente o frescor da vivência, seja ela agradável ou não. Não que cada pessoa envolta de mim seja um pouco do sangue que corre em minha veia. Mas sim o que me sustenta, me dá força plena para aceitar e seguir em frente. Pela graça de poder dizer: eu sou humano, eu tenho escolhas, eu tenho amigos. Mesmo que da falta que faço a mim mesmo, peço-me perdão. Perdão esse, que valerá se por algum acaso eu me encontrar. Não estou ligando se o que falo agora vai estar fazendo sentido com tudo que já falei. Nada agora me importa se faz sentido ou não. Ligo apenas para o que está à frente dos meus olhos...
terça-feira, 24 de novembro de 2009
Planos de Vôo

1 – os motivos
Sempre haverá um rompimento
ou discussão envenenada.
Por um momento, bem sabemos,
motivo é o que menos há.
Sempre haverá uma dor de perda
que só se perdendo para esquecê-la.
E há, sempre há, motivo obscuro
nunca suposto, jamais revelado.
Sempre haverá demissão inesperada,
concepção indesejada, inoportuna,
surgida em hora ingrata pela mão de sujeito
sem-nome, sem-vergonha, sem-cara.
(Nenhum que justifique ou que explique)
2 – a forma
É público, porém limpo –
outros verão o espetáculo,
não aqueles de apreço.
(Em casa, o sangue manchará
cortinas, desvalorizará o imóvel.)
É público, porém limpo –
outros verão o show, serão
aqueles que por um ou dois dias
deixarão de dormir,
beberão café em excesso,
terão um cigarro queimando os dedos.
Serão aqueles que esquecerão logo,
que comentarão via telefone,
especularão pela mãe – pobrezinha! –
e levarão o episódio às manicures.
É público, porém limpo.
Logo a ambulância fará o seu serviço
e a chuva ou as varredeiras, o seu.
(Em casa, o sangue entupirá
o ralo e excitará o cão.)
3 – o viaduto
a) Demolir seria insano, já que é via importante que oxigena o corpo da cidade. Demolir seria pôr fim a engenharia respeitável, amputando a paisagem. Bem sabemos que sempre haverá outros métodos a serem utilizados: a corda e a faca preenchem o cardápio.
Demolir seria insano, já que é veia vital que irriga o coração da cidade. Demolir seria incinerar o dinheiro do contribuinte, aleijando o cenário. Bem sabemos que sempre haverá outras formas convidando ao ato: revólver dormindo debaixo do travesseiro, mata-rato na prateleira final do supermercado.
b) Policiar se mostra inútil – seria o mesmo que montar base sobre os ossos dos cavalos ou à estátua de um elefante cinzento.
Policiar se mostra inútil, posto que se trata de região rica em possibilidades: os rios convidam ao afogamento e as margens barrentas à decomposição.
E quando tudo estiver sitiado, sobre a cômoda desaparecerá uma dezena de comprimidos da mãe.
4 – a rota
Nenhum semáforo que avermelhe
ou placa de trânsito que obrigue
(O sol
projetando a sombra)
Caminho pouco imaginativo
de paisagem em baixa resolução
(O vento
desmanchando o penteado)
5 – instante
Último pensamento
incapaz de
pela
dourando as
*
quinta-feira, 19 de novembro de 2009
Revisited
Já era a terceira reencarnação como mulher, um saco.
Depilação, menstruação, cabelo, maquiagem.
Malícia, mentiras, segredos, jogos inúteis com homens inúteis.
Calculei o tempo, olhei em volta, as ancas da mulher chata que vai dizer que é minha mãe e que não posso fumar em casa e isso e aquilo estão dilatadas.
Vi aquela mão de novo, me puxou pela cabeça, filho da puta.
Começo a chorar, dos males o menor, assim ele não bate na minha bunda recém-chegada.
Falando em bunda, nasci no Brasil.
O tempo na Terra passa rápido.
15 anos depois e aquela bunda que saiu da bunda cheia de sangue da minha mãe agora já solta o próprio sangue.
Estou menstruada, com espinhas.
Tenho tantas dúvidas quanto mensagens de garotos tapados em meu celular cor-de-rosa.
25 anos e todos dizem que sou linda.
Mas não olham em meu rosto, e nem preciso dizer pra onde é que estão olhando enfim.
Trabalho demais, minto muito, coleciono segredos e namoros fracassados.
Uma mulher moderna.Independente. Faço sexo sem compromisso.
Um sucesso, segundo minhas amigas. Vadias.
35 anos e descubro que meu marido tem outra.
Grávida, fujo dele, da cidade, da merda toda.
Até que foi legal. Fugir é coisa de mulher decidida.
45 anos. Morri num acidente de carro.
O caminhoneiro imbecil que me matou dormiu no volante.
A alma saindo do corpo, e ainda deu tempo de ouvir um transeunte dizer em alto e bom tom que a motorista era mulher, que a culpa devia ser minha.
Guardei bem a cara dele.
Se volto a tempo, seduzo teu filho com a bunda eterna.
Se volto homem, aí campeão, aí você tá ferrado.
E tenho dito.
segunda-feira, 16 de novembro de 2009
domingo, 15 de novembro de 2009
Fanatismo
ou nenhum tato,
sem algo que o impeça
e súbito,
esse clichê de peito cheio invade,
esmorecendo os muros
da ExcentriCidade.
E dói desabrido, chega aos olhos
e num desbordamento tanto,
molha intenso
-corpo escorrendo
ainda
pelas pernas-
É o bicho mais feroz,
um cantochão aflito,
são os meus gritos procurando ecos
nas trajetórias dos cometas mais longínquos
e vibrando inversos,
desarmônicos, malditos.
É ele! Ah, ainda ele!
Um aleijão platônico,
carneando Prometeu na minha frente,
consumindo minha pele, alma,
quintessência jônica.
quinta-feira, 12 de novembro de 2009
Intuição feminina
Após muitos erros, quando ele não aguentou mais a desconfiança e fugiu, ela esvaziou-se de dúvidas e, por fim, encheu a boca de razão para falar que já sabia.
sábado, 7 de novembro de 2009
Navegante

segunda-feira, 2 de novembro de 2009
O menino e o mundo
A bola na mão era azul
Azul como o mundo
por onde o menino andava.
Na cabeça do menino
a bola azul era o mundo.
E ele caminhava com o cuidado
de quem traz nas mãos
a humanidade.
O mundo,
nas mãos do menino,
é livre.
Livre como seria qualquer mundo
nas mãos de meninos.
Parado na calçada
ele me sorri.
Ele me sorri e na verdade
me acorda.
E só então continua caminhando
com o mundo nas mãos.
